MUITO BRIO «AZUL» NA PRIMEIRA VITÓRIA «FORA»

Estádio Municipal de Tomar, 5 de Janeiro de 1969
Árbitro – Porfírio da Silva, de Aveiro

U. TOMAR – Arsénio (1); Kiki (1), Caló (2), Dui (1) e Santos (1) (45m – Barnabé (2)); Bilreiro (0), Faustino, «cap.» (1) e Cláudio (2); Leitão (1) (83m – Lecas (1)), Alberto (1) e Totoi (1)

BELENENSES – Mourinho (3); Assis (3), Quaresma, «cap.» (3), Murça (3) e Esteves (3); Cardoso (1) (77m – Adelino (1)), Saporiti (2) e Luciano (3); Laurindo (3), Sérgio (1) (63 – Ernesto (1)) e Godinho (2)

0-1 – Laurindo – 43m
Ao intervalo: 0-1.

O único golo do desafio foi marcado por Laurindo aos quarenta e três minutos. Do lado direito, Sérgio escapou-se a dois adversários e, com boa visão, fez um cruzamento largo, para Godinho, que bateu Kiki e correu até à linha de cabeceira, de onde centrou, por alto. Apareceram para o remate, três jogadores belenenses (Saporiti, Laurindo e Sérgio) e nenhum tomarense – nem o próprio guarda-redes, Arsénio, apesar de a bola «pingar» já dentro da sua pequena área. Elevando-se, tal como aqueles seus dois companheiros, Laurindo desviou o esférico, com a cabeça, para o lado esquerdo da baliza.
No segundo tempo: 0-0.
Resultado: 0-1.
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Cremos que o União de Tomar tem razões para se lamentar do facto de, na impossibilidade de melhor, não ter empatado sem golos este jogo com o Belenenses, pois afigura-se-nos indiscutível que o golo que sofreu e que o derrotou só se terá verificado por manifesto lapso ou apatia momentânea de parte da sua defesa – nomeadamente, os dois «centrais», que «não estiveram lá», e, sobretudo, do seu guarda-redes, que ficou entre os postes, não saindo a cortar o «centro» e permitindo, assim, que nada menos de três dianteiros adversários se apresentassem, a poucos metros de distância das balizas, em posição e com tempo e espaço mais do que suficientes para rematarem com êxito.


E, deste modo, perderam os tomarenses pela terceira vez em «casa», neste «Nacional», depois de ali já terem sido vencidas equipas da força e do prestígio do Sporting (2-1), da Académica (2-1) e do Vitória de Guimarães (3-1) e onde apenas haviam sido vencedores o F. C. Porto (2-0) e o Varzim (3-1), sendo a Cuf (1-1) o outro único visitante a não deixar ficar os dois pontos em discussão.


A par daquele lance infeliz dos nabantinos, porém, julgamos, igualmente, que está fora de toda a causa e possível dúvida o mérito com que o Belenenses foi conseguir a Tomar esta vitória preciosa – que é a primeira por si alcançada na prova, em terreno alheio, e que, por isso mesmo, maior satisfação deu, com certeza, aos adeptos do prestigioso clube do Restelo, os quais, em dia frio, mas de sol aberto e, como tal, convidativo à deslocação, compareceram ao jogo em número apreciável, e, assim, bastante contribuiram para a «boa assistência» registada no airoso (se bem que ainda longe do ideal, a começar no terreno pelado e a acabar nos acessos…) Estádio Municipal de Tomar.


Poderão os nabantinos lamentar-se, também, de que a sua equipa dominou intensamente, em quase todo o segundo tempo e acabou por perder com um antagonista que, não sofrendo qualquer golo nesse longo e insistente assédio que sofreu, teve a «sorte» de marcar um, pertíssimo do intervalo, atingido com a lógica a dizer a toda a gente que a igualdade reflectiria melhor o verificado nos 45 minutos até então jogados.


Mas, numa serena análise de consciência e dos factos, pensamos que nem os tomarenses mais apaixonados deixarão de reconhecer, agora, duas verdades que temos por firmes e indesmentíveis: – também há mérito no aproveitamento da única verdadeira oportunidade de golo de que se dispõe e nada mais houve do que nervos e frenesi no intenso domínio territorial exercido pela equipa do União – comprometida, até, e, em grande escala, pelo tom lamentavelmente «azedo» que alguns dos seus elementos puseram no despique, a partir de certa altura – com triste evidência para Bilreiro, acrescente-se já.

Ao invés, souberam todos os jogadores «azuis» manter sempre uma notável «frieza» de ideias e de espírito e, como o brio e a coragem também nunca faltaram a nenhum deles, eis porque encontramos justiça e merecido prémio na vitória do Belenenses – vitória que, além de ser a primeira em terreno alheio, tal como já dissemos, também é a primeira desde a sétima jornada (4-1, no Restelo, ao Varzim) e põe cobro a uma curiosa série em que derrotas e empates se alternaram, regularmente: 1-3 com o Atlético (fora), 0-0 com o Sporting («casa»), 0-2 com o V. Guimarães (fora), 1-1 com a Cuf («casa»), 0-2 com a Académica (fora), 1-1 com o F. C. Porto («casa») e 1-2 com o Benfica («casa»).
Por outras palavras: – o Belenenses, ontem, num só jogo e no campo do adversário conquistou apenas menos um ponto (2) do que nas sete anteriores jornadas (3).


O jeito descomandado e aqui e além, muito rude que os nabantinos imprimiram ao seu futebol, em quase todo o segundo tempo, teve tanto mais de surpreendente, até, quanto mais se atentar no que se lhes viu em toda a primeira parte, quando se entregaram a jogar apenas com vigor e energia e, não fazendo a bola subir a alturas demasiadas (salvo num ou noutro lance esporádico), levaram o duelo a pender mais para o meio-campo belenense, criando situações de certo perigo e mostrando-se os tomarenses, por isso, aparentemente encarreirados no caminho do triunfo.


Em contrapartida, pode afirmar-se que escassas ameaças foram geradas, então, pelo ataque do Belenenses, que só por intermédio dos extremos (especialmente, por Laurindo) adregou penetrar mesmo na grande área adversa e que, exceptuado o lance do golo, apenas aos 35 minutos esteve à beira de marcar, quando o mesmo Laurindo rematou por cima da barra, em boa posição e com Arsénio (desamparado) a sair ao seu encontro.
Valeram aos «azuis», nesses 45 minutos de abertura, o acerto e a coesão da sua defensiva, que nem tornou necessário, sequer que Mourinho se visse forçado a intervenções de autêntico apuro – se bem que chamado a jogo com bastante frequência.


O golo belenense, porém, surgindo perto do intervalo, deve ter perturbado em demasia os homens de Tomar, que regressaram ao terreno como que «revoltados» pela desvantagem, e sem a serenidade e o relativo esclarecimento anteriores, passaram a levantar a bola e, consequentemente, a dar origem a choques sucessivos, que cedo deixaram «marcas» em Luciano (por duas vezes, ambas a cargo de Bilreiro – uma delas, já sem bola) e em Quaresma.


Neste jeito, que chegou a fazer recear pela manutenção da boa ordem dentro do campo, perdeu imenso o espectáculo, obrigatoriamente, e ter-se-á perdido o União, que mais não conseguiu, até cerca da meia hora, do que «despejar» a bola sobre a grande área belenense que «cerrou fileiras», acantonando ali a quase totalidade dos seus onze elementos.


Não se desgastaram, por isso, os jogadores «azuis», mas sim os tomarenses, que acabaram por ver os adversários sacudirem aquela enorme e atabalhoada pressão e, nos derradeiros quinze minutos, serem até os lisboetas (substituído Sérgio por Ernesto, sem vantagem, e Cardoso por Adelino, que trouxe algo mais de clareza ao jogo) a estarem mais perto de consolidar o seu avanço – para o que teria bastado um Ernesto na sua «forma» normal.


Duas substituições se fizeram, entretanto, também, nos nabantinos, que, desde o intervalo, ainda colocaram Faustino ao lado de Alberto, como «ponta-de-lança», derivando Leitão para a direita e passando a equipa a ter, assim, quatro homens fixos na frente. Mas nem a mudança táctica trouxe benefícios (dado o processo de jogo seguido), nem a acção de Barnabé (se bem que superior à de Santos) pôde influir grandemente (por se tratar de um defesa), nem Lecas mostrou vantagem sobre Leitão – até por ter jogado, apenas, sete minutos e sete minutos de um período em que só o Belenenses existia como equipa organizada e confiante.


Ao União de Tomar, fez muita falta, sem dúvida, o seu «capitão» Ferreira Pinto, cuja experiência e qualidade técnica teriam impedido, naturalmente, aquele contra-indicado processo do segundo tempo.
Mas, mesmo sem «pedra» de tanta influência, esperávamos mais dos tomarenses, que, em serenidade, sob todos os aspectos, em nada se assemelharam à equipa esclarecida que viramos, uma semana antes, ganhar tão bem na Tapadinha.
As circunstâncias eram diferentes. Bem o sabemos. Na Tapadinha, houve que defender e tentar o contra-ataque; ontem, em «casa», sentiu-se a necessidade de atacar e… aquele segundo tempo, esquecido como e o que se havia feito no primeiro, foi um «desastre».


Arsénio não pode ficar isento de culpas no golo, bem como os dois «centrais», onde Caló, mesmo assim, esteve melhor do que Dui (e aquele arremesso de terra à cara de Esteves…), enquanto Barnabé justificava a chamada, suplantando, a boa distância, Kiki e Santos.
Dali para a frente, menção honrosa para Cláudio (o único que procurou contrariar sempre o levantar da bola e os lances de choque) e renovação de ásperas censuras para Bilreiro, o mais flagrante «caso» de «descomando» nervoso.
Os restantes, todos muito iguais, num plano bem modesto.


Brio, brio e dignidade foi o que o jogo mais exigiu aos homens da camisola azul. E eles tiveram as duas coisas, exuberante e muito louvavelmente. Só por isso, teriam merecido o triunfo.
Mas não foi tudo o que se lhes viu. No Belenenses de ontem, também houve uns lampejos de futebol, na execução e nas intenções, sempre que o duelo se travou mais em jeito do que em força.
Ficou-nos a sensação de que a equipa pode entrar noutro ritmo, de exibições e de resultados, logo que recupere, por completo, a confiança em si própria. E talvez tenha começado ontem, com esta vitória, pois, antes, empates (excelentes, embora!) em Setúbal (1-1) e Matosinhos (0-0) eram os únicos desfechos não «negativos» alcançados em terreno alheio.


Excelentes todos os elementos a quem atribuímos a «nota» máxima: Mourinho, Assis, Quaresma, Murça, Esteves, Luciano e Laurindo.
A seguir, Saporiti e Godinho, se bem que Cardoso, Sérgio, Ernesto (um evidente caso de falta de «forma») e Adelino (jogou pouco tempo), embora rendendo menos, tenham sido iguais aos melhores, no muito de sacrifício que o desafio exigiu.


Não agradou a arbitragem ao público local. Mas sem razão, pois Porfírio da Silva, numa tarefa assaz ingrata, teve actuação bastante boa e, na maior parte das vezes que errou, não foi em prejuízo dos tomarenses.
O exemplo mais flagrante: – permissão, sem medida drástica, de tantas «tropelias» de Bilreiro – mas aqui, com as mais vincadas responsabilidades a recairem no «bandeirinha», Vicente Fernando, que… esteve muito distraído, certamente…»
(“A Bola”, 06.01.1969 – Crónica de Cruz dos Santos)


Post amavelmente cedido pelo Blog Amigo, UNIÃO DE TOMAR

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